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domingo, 22 de setembro de 2013

O “bunker” da indiferença

Leo Daniele (*)

Quem não ouviu falar da famosíssima experiência de Pavlov?

Coloca-se açúcar diante de um cão imobilizado. Ele salivará. A seguir, associa-se a apresentação do açúcar ao som de uma buzina, e repete-se a operação várias vezes. O cachorro continua a salivar normalmente. 

Em uma terceira fase, toca-se a buzina, mas não se apresenta o açúcar. O cão saliva, porque se estabeleceu uma associação entre o som da buzina e a apresentação do açúcar.

É o que o cientista russo, os meios científicos e culturais chamam, de reflexo condicionado.

Se se continuar tocando a buzina, de vez em quando, mas sem apresentar o açúcar, o que acontecerá? A salivação irá diminuindo, e começará a se manifestar uma inibição das funções reflexas, que irá se estender a todo o organismo e engendrar um estado de sonolência. 

A mesma inibição das funções reflexas, que assim se obteve pela repetição, pode-se conseguir quando o excitante for particularmente intenso. Por exemplo, a aparição súbita de uma serpente pode inibir as reações de fuga de um pássaro.

Algo de semelhante acontece com o homem pós-moderno? acocorado dentro de seu “bunker”(1) de indiferença, já não capta com grande clareza a realidade externa. Culposamente, diante de uma situação em que ele normalmente reagiria, pode acontecer que se limite a bocejar ou a lançar um vago lamento.

Por exemplo, o Brasil está sendo penetrado por um batalhão de 4 mil médicos cubanos e apesar das dimensões do lance, quase ninguém protesta! Ou o faz por causa de um pequeno aspecto secundário!

O homem de hoje, pela TV, pela internet, e outros meios de comunicação, está sendo submetido a uma espécie de experiência de Pavlov. Uma verdadeira sarabanda. Em várias ocasiões, Plinio Corrêa de Oliveira mostrou os efeitos deletérios de certa mídia, do próprio acontecer moderno e pós-moderno sobre os nervos dos indivíduos:

“O que faz esta sarabanda informativa? Interessa? Atrai? Orienta? A meu ver, o mais das vezes causa acabrunhamento, superexcitação, e por fim tédio. Sim, o tédio dentro da superexcitação; eis o estado de espírito que a pletora informativa cria em muitos e muitos de nossos contemporâneos [...] Em suma, todos sabem de tudo, não entendem nada, alguns ficam com os nervos a tinir, e quase todos, à falta de melhor, bocejam”.(2)

“Acontecimentos que em outras épocas teriam ferido profundamente a sensibilidade do público, despertando reações clamorosas, hoje não inquietam a quase ninguém e não geram nenhum conflito sério. Mesmo quando transgridem princípios e convicções, e até quando contrariam — supremo mal em nossos dias — consideráveis interesses individuais ou de grupo”.(3)

O ilustre autor constata:

“A opinião pública está desnorteada e cambaleante, com toda a zoeira do caos contemporâneo. E isto a leva a alternativas de sobreexcitação e de letargia”.(4)

Vem-se falando — e com justíssimo motivo — dos efeitos nocivos da televisão sobre a psique dos meninos. Pouco ou nada se escreveu sobre as deformações que a própria vida moderna pode provocar sobre um adulto que viva num grande centro e se entregue ao frenesi próprio de nossa época. Muitos dos elementos que prejudicam a vida mental e emotiva das crianças teledependentes podem ser encontrados nesse frenesi, ao qual ainda se somam as ansiedades, as preocupações e as torções muitas vezes presentes no quotidiano de quem precisa ganhar a vida.

Tudo isto pode conduzir à indiferença. E como o indiferente se defende, para não deixar a indiferença! Nisto ele não tem nenhum relaxamento, e defende o estado de torpor valentemente. Como se estivesse dentro de um bunker! E a principal arma de defesa é a frase: “O que tenho a ver com isso?”

Observa Plinio Corrêa de Oliveira: “Durante o dia, em cada minuto, pensa em si e em seus problemas, uma vez ou outra lê um jornal e comenta um acontecimento, pensando que com ele próprio não é assim, graças a Deus. Dobra o jornal e acabou-se. Esta indiferença associa a pessoa à categoria dos indiferentes”. 

Se precisar ensinar a alguém como escapar desse bunker, para ser breve eu diria: adote como lema três palavras: Ver – julgar – agir. Ver com inteira objetividade, sem otimismo nem pessimismo. Julgar sem paixão e com justiça. Agir sem omissão, mas também sem um ardor descalibrado e impaciente: são esses os três tempos da Sabedoria, e da anti-indiferença. 
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Notas: 
1. Termo utilizado em sentido figurado. Em sentido próprio, bunker é uma instalação fortificada fechada, com teto arredondado, à prova dos projéteis inimigos. 
2. “Folha de S. Paulo”, 23 de maio de 1971. 
3. TFP-Covadonga, España Anestesiada sin Percibirlo, Amordazada sin Quererlo, Extraviada sin Saberlo - La Obra del PSOE. Ed. Fernando III El Santo, 1988, p. 21. 
4. “Folha de S. Paulo”, 25 de abril de 1971.
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(*) Leo Daniele é colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM)

sábado, 24 de setembro de 2011

CANSAÇO


Leo Daniele (*)

O suspense cansa.

Imaginemos um carro à beira do precipício. Um verdadeiro abismo com todas as suas características, inclusive o convite gritante para a ação da força da gravidade. O vazio sobe no nosso peito, nos incomoda, o impacto do episódio nos impressiona. E se …? O motorista do carro, entretanto, está despreocupado. Os passageiros também. Mas a tragédia é para dentro de segundos.

Digamos que a cena seja a ilustração com a qual abrimos todos os dias nosso computador (que mau gosto, não?). Ao cabo de um ano, a ilustração só impressiona visitantes. Para nós, apenas causa bocejos. Ficou rotineira.

Hoje, como numa dança macabra, a tragédia se repete sem parar numa escala mundial. São desastres atrás de desastres. Filhos matam seus pais, mães assassinam seus filhos (nem estou falando do aborto). Professoras escandalizam seus alunos. A moralidade se precipita, como o carro do início deste artigo. Os homossexuais pretendem “casar-se”. O mais alto edifício de mundo é derrubado por terroristas (lembra-se?). Terroristas massacram 20 ou 50. Em alguma parte do globo, a cada 5 minutos acontece o martírio de um católico, segundo li neste mesmo site.

E as pessoas que deveriam dar brados de alerta, ter lágrimas de pranto, soltar clamores de indignação, bocejam.

Contribuem para o cansaço geral, limitando-se a dizer de vez em quanto: “É lamentável…” E ficam por aí. Eu também fico por aqui. A opinião pública assiste, cansada.

“Quais as causas dessa ingenuidade obstinadamente cega, que penetrou em tantos, grandes ou pequenos, cultos ou ignorantes, moços ou velhos?”, perguntava, nas páginas da Folha de S. Paulo, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira em 1968 (28 de agosto).

O fenômeno é o mesmo. Ele responde: “É o cansaço, o terrível cansaço de ser lógico, sério, coerente e arguto”. Sim, estaremos cansados, o excesso de informações na internet, imprensa, rádio, TV, continuando a produzir esta estafa.

Mas convém ter presente que o autor afirma, no mesmo artigo: “Pode-se dizer que em muitas guerras ou tensões internacionais, ganhou quem, até o fim, não se deixou penetrar por esse amolecimento fatal”.

Sejamos um destes. Sacudamos o torpor. O momento presente no-lo pede. Nossa Senhora nos ajudará.
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(*)  Léo Daniele é colaborar da ABIM