Mostrando postagens com marcador Desigualdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Desigualdade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A gorjeta


 § Leo Daniele 

Quem não sabe apreciar as pequenas coisas da vida, está fechado para as grandes. Talvez por isso, que eu saiba, até hoje não surgiu uma sociologia da gorjeta.

Vem à mente uma cadeira um pouco alta sobre um estrado, em que o cliente sobe com um pequeno esforço, para que a posição das mãos dos engraxates, sentados sob a altura de seus pés, esteja na posição adequada. “Quer um jornal?” O servidor oferece-o para ser lido durante a singela ação que vai executar.

São homens que geralmente se esmeram em ser atenciosos. Um socialista diria que a cena é uma imagem da desigualdade social que existe no Brasil. Mas os rapazes nem sabem o que é isso, e se soubessem não se incomodariam. Bah! Os intelectuais!

Se o engraxate é um velho profissional, depois de uma limpeza rápida e de algumas providências prévias, ele toma duas escovas, uma em cada mão. E numa fúria frenética, mas ao mesmo calma (um paradoxo), bem humorada e pacífica, dá lustro aos dois calçados. As escovas sobem e descem simultaneamente, em alta velocidade.

Depois, com uma flanela, e a mesma celeridade, vem a hora de dar brilho: os sapatos estão reluzentes e luzidios. Ele finalmente começa a retirar os anteparos que tinha colocado nos lados dos calçados, para preservar as meias do freguês. É sinal de que a “engraxagem” terminou, e chegou a hora de pagar.

— Quanto é? O freguês paga justo e deixa um pouco mais. É a gorjeta. Até logo! Até a próxima! Felicidades, doutor (é sempre presumido que é doutor).

Vejo com simpatia esta cena certamente do passado mas estritamente contemporânea nossa; de hoje, mas que lembra coisas de antanho. Deveria ser objeto de uma sociologia dos fatos pequenos mas palpitantes da vida, pois a gorjeta não é um pagamento, mas uma concessão. Enquanto concessão, ela exprime confiança, gratidão e reconhecimento de quem concede e de quem recebe. Nela reside um sentimento de ordem social, segundo o qual cada um se afeiçoa às desigualdades, que não esmagam, mas se auxiliam e se completam. É o Brasil real, o Brasil brasileiro que no silêncio da mídia e na ausência das atenções, vai dando lições de uma felicidade sem prazer, pouco planejada, nada planificada, nunca inteiramente impessoal, mas autêntica, tranquila, despretensiosa, que passa quase desapercebida. Episódios como este hoje em poucos países se veem.

Há meninos que, como primeira obra de carpintaria da vida, fazem uma tosca caixa para lustrar sapatos e ganhar uns trocadinhos. Tempos atrás havia um número bem maior desses simpáticos adolescentes, nas ruas e praças do Brasil, mas ainda existem.

Dentro de uma “engraxagem”, a gorjeta é uma nota harmônica ou cacofônica? Diria alguém que é uma estridência pois, onde entra o “vil metal”, as coisas desafinam. Mas numa cena quase familiar como a descrita, a gorjeta cabe naturalmente. Ela acentua a nota de desigualdade gentil, respeitosa e, como diz Plinio Corrêa de Oliveira, musical. Uma maneira honesta de ganhar a vida. A gorjeta aproxima as classes sociais. Não quer dizer que não possa haver abusos de parte a parte, mas isso é bem outro assunto. O abuso não exclui o uso, e este uso de si é aperfeiçoante dos trabalhos.

Há muitos tipos de serviço que postulam uma gratificação: hotéis, taxis, postos de gasolina, etc. Num restaurante, as gorjetas, são de duas modalidades: as espontâneas e as compulsórias, sendo estas incluídas na nota. Falemos das espontâneas, as dadas diretamente pelos clientes aos garçons. Se o serviço não agradou, não há por que gratificar largamente. Mas se a gorjeta foi boa, é um elogio ao serviçal. É um estímulo à perfeição. Há uma discreta relação de personalidades entre ambos.

As gratificações “azeitam” as desigualdades, e nesse sentido, pode-se até falar em “função social da gorjeta”. É um fator pequeno, minúsculo, insignificante até, mas, que dizer? Não é em torno de minúcias não planificadas, orgânicas, familiares, honestas, cristãs como esta, que se pode consumar ou não, o bem estar da civilização?

A essas atividades se aplica, à merveille, um magnífico comentário de Dr. Plinio: “Cada pessoa deve ser ela mesma. Cada um deve respeitar a personalidade do outro, sentir as afinidades e sentir as diferenças [...] a cortesia é o laço cheio de respeito, de distinção, de afeto, que prende pessoas diferentes, e as coloca numa relação como as notas de uma música entre si”.[*]
____________ 
[*] À Procura de Almas com Alma, excertos do pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira, Edições Brasil de Amanhã, São Paulo, 1998, p. 201.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fazem falta verdadeiras elites



Leo Daniele (*)

Poucas coisas existem simples como a desigualdade. Poucas complicadas, torcidas e equivocadas, como o igualitarismo.

Neste mundo sem dogmas e sem religião, o igualitarismo é uma espécie de “dogma”. Para os igualitários, as desigualdades são como as doenças: não se consegue evitá-las completamente, mas é preciso afastá-las o quanto for possível.

Verdadeiro ou falso? Falso! Como se lê no livro Nobreza e Elites Tradicionais análogas, de Plinio Corrêa de Oliveira (ao lado foto da capa) . E inclusive a sabedoria imemorial de todos os povos rejeita essa concepção igualitária.

A falta de espaço impede uma explanação metódica e completa sobre o tema das desigualdades, como a faria o ilustre autor, considerado “o teólogo das desigualdades sociais”. Ouçamos, entretanto, em breves sentenças o eco da sabedoria dos povos e dos milênios, sobre esse asssunto.

  • O velho Eurípedes afirmava que a igualdade não tem outra existência que a de seu nome.
  • Plutarco observava que a distância de animal a animal de espécies diversas não é tão grande quanto a que vai de homem a homem.
  • Constatam os árabes que até os cinco dedos da mão não são iguais.
  • Os alemães, de seu lado, recomendam a quem procura a igualdade, que vá ao cemitério.
  • Dizem os indianos: “Entre os homens, uns são jóias, outros pedregulhos”.
  • Com espírito, acrescentam os turcos: “Os cisnes pertencem à mesma família que os patos, só que eles são cisnes”.
  • Os gregos sentenciam: “Se o sol não existisse, seria noite apesar da presença de todas as estrelas”.
  • Vauvenargues remata: “A natureza nada fez de igual; sua lei soberana é a submissão e a dependência”.

E cada leitor pode acrescentar suas observações, pois até duas gotas de água da chuva que caem numa vidraça são desiguais. Se isso é assim, é porque Deus quis que assim fosse. Vamos, então, para as alturas! “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”, ensinava Nosso Senhor Jesus Cristo.

O que concluir? Deus é o autor de todas as desigualdades e, respeitada a igualdade fundamental proveniente do fato de todos os homens terem a mesma natureza e os mesmos direitos fundamentais, devemos amar as desigualdades acidentais entre eles, se queremos amar a Deus.

Bem… se isto for visto assim por muitos, será natural a formação de numerosas elites. Sim, de verdadeiras elites. De elites tradicionais. De elites autênticas. De cuja ausência, hoje tanto se ressente a sociedade brasileira.
____________ 
(*)  Léo Daniele é colaborar da ABIM