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sábado, 13 de agosto de 2011

Netas de Deus (final)


Pe. David Francisquini

Ninguém de nós duvida da promessa feita por Nosso Senhor, de que permaneceria com a Igreja até a consumação dos séculos e que as portas do inferno não prevaleceriam contra Ela. Com efeito, a assistência do Espírito Santo se difunde em todos os campos da vida da Igreja, que é o próprio Corpo Místico de Cristo.

Como nos ensina Plinio Corrêa de Oliveira, “em suas instituições, em sua universalidade, em sua insuperável catolicidade, a Igreja é um verdadeiro espelho no qual se reflete nosso Divino Salvador”.


Também na sua exterioridade — na arquitetura, na escultura, na pintura, na música, etc. — a Igreja deve refletir as perfeições de seu divino Fundador, impregnando com elas as almas dos fiéis. É por isso que as boas obras de arte são uma expressão da Verdade, do Bem e do Belo, cujo absoluto é Deus, e que as obras de arte extravagantes são o contrário disso...

Assunção de Nossa Senhora
aos Céus (do pintor espanhol
Joan de Joanes, séc. XVI)
São ainda expressões de Deus — ou suas “netas”, porque “filhas” dos homens — o som do órgão ou do canto gregoriano, a pintura sacra retratando passagens bíblicas, tudo em harmonia perfeita para nos fazer crescer no amor do Criador e nos preparar para a vida eterna, quando contemplaremos Deus face a face.

Portanto, negar as imagens é negar essa ação e a própria atuação do Espírito Santo. Ele conduz a Igreja a cumprir sua missão aqui na Terra. Ademais, elas servem também para assinalar a diferença entre a verdadeira Igreja de Jesus Cristo e as seitas protestantes. Não se trata de idolatria, mas de expressão visível do ensinamento do Divino Espírito Santo.

Romper com isso corresponde romper com a Igreja, uma, santa, católica, apostólica, romana. Por isso, São João Damasceno [pintura abaixo], polemista de renome e de grande cultura teológica, afirma que no Antigo Testamento Deus nunca fora representado em imagens, porque era incorpóreo e sem rosto.

Contudo — continua o santo oriental —, tendo Deus se encarnado e habitado entre nós, não só podemos, mas devemos representar aquilo que é visível em Deus. Fazendo-o não veneramos a matéria, mas o Criador da matéria. Na verdade, Ele se fez matéria por nossa causa e se dignou habitar na matéria e realizar nossa salvação através da matéria.

São palavras de São João Damasceno: “Não cessarei de venerar a matéria através da qual chegou a minha salvação. Não a venero de modo algum como Deus! Como poderia ser Deus aquilo que recebeu a existência a partir do não-ser? [...] Mas venero e respeito também a matéria que me propiciou a salvação, enquanto plena de energias e de graças santas”. (São João Damasceno, Contra imaginum calumniatores, I, 16, Ed. Kotter, pp. 89-90).

Não é por acaso matéria o madeiro da Cruz três vezes santa? E a tinta e o livro santíssimo dos Evangelhos não são igualmente matéria? E o altar da salvação que nos dispensa o pão de vida não é matéria? Não é verdade que a carne e o sangue do Nosso Senhor Jesus Cristo são da mesma forma matérias?

Portanto, não ofenda a matéria. Ela não é desprezível, porque nada do que Deus fez é desprezível.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

AS “NETAS DE DEUS”

Moeda, conhecida como “Luis de ouro” (tesouro de Notre Dame), com a efígie do rei São Luis IX (séc. XIII)
Pe. David Francisquini (*)

Assim como se cunham moedas para distinguir e enobrecer personagens ilustres, ou ainda para ressaltar acontecimentos históricos e simbólicos da ordem temporal, com todo o propósito podem-se esculpir ou pintar imagens daqueles que se distinguiram pela virtude e santidade na ordem espiritual.

A sã filosofia nos ensina que sendo o homem composto de corpo e alma, nenhuma idéia ou imagem chega à sua inteligência sem antes passar pelos sentidos. Com esse pressuposto, a pedagogia católica não encontrou melhor maneira de lembrar e perpetuar a santidade de uma pessoa do que a retratando através de sua pintura ou escultura.

Por exemplo, quanto mais requintada for uma pintura ou escultura representando as três pessoas da Santíssima Trindade tanto maior será a idéia que o homem poderá fazer delas — dentro, evidentemente, do limite da compreensão humana do incompreensível. E, guardadas todas as abissais proporções, análoga lembrança poder-se-á aplicar também aos filhos justos e modelares do Criador.

Como conhecer um justo nesse mundo? — Aquele que segue ou procura seguir estritamente a vontade de Deus. São José, por exemplo, foi qualificado pelas Escrituras como varão justo. Outros personagens se distinguem de tal modo na prática amorosa da Lei Santa que se tornam amigos íntimos de Deus, luzes reflexas do próprio Deus.

Em sua sabedoria infinita, o Onipotente enriqueceu a natureza com uma grande variedade de seres, cada qual retratando uma de suas facetas. Isso para que tais seres não apenas atendessem aos divinos desígnios, mas ainda visando servirem de constante convite ao homem, no sentido de se elevarem à Causa das causas. E assim conhecer, amar e servir a Deus neste mundo.

A pintura e a escultura — “netas de Deus”, na linguagem de Dante Alighieri — são produtos da inteligência humana que ao enriquecerem com sua beleza os templos sagrados concorrem para o incremento da piedade e da devoção dos fiéis, elevando-os a Nosso Senhor.

Quando moldadas pela piedade e pelo bom espírito, tais obras ficam impregnadas de bênçãos, atuando às vezes por obra do Espírito Santo no íntimo dos corações dos pecadores e movendo-os a mudar de vida.

O próprio Templo de Jerusalém — a Casa de Deus por excelência no Antigo Testamento — era adornado por inspiração divina com uma enorme diversidade de símbolos: palmeiras, a Arca da Aliança [pintura ao lado], as Tábuas da Lei, a vara de Aarão, os querubins, e tantas outras figuras para lembrar a vinda do futuro Salvador do mundo.

Inclinados infelizmente à idolatria, os hebreus recorriam com frequência a esta prática criminosa erigindo e cultuando criaturas em lugar de Deus. Preocupada com a idolatria e mesmo com o panteísmo do povo escolhido, a pedagogia divina no Antigo Testamento tomara todo o cuidado para evitar que as almas fossem influenciadas por tal concepção errônea.

Sendo Deus invisível, absoluto, transcendente, puramente espiritual, dotado de inteligência perfeitíssima e de vontade santíssima, era de certo modo inacessível ao povo hebreu. Daí decorria para eles, de um lado, a necessidade psicológica de confeccionar imagens, e de outro, a proibição de o fazerem, a fim de evitar a idolatria, prática comum no Antigo Testamento.

Com fundamento na doutrina da Santa Igreja e nos seus santos, pretendo no próximo artigo justificar a confecção de imagens a partir da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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(*) Sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria, Cardoso Moreira - RJ