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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Desfazendo um equívoco


Gregorio Vivanco Lopes (*)
Cresce o número dos que se dizem decepcionados com o Partido dos Trabalhadores. As manifestações de rua e as páginas dos jornais o atestam com exuberância. O PT do Mensalão, da introdução da Venezuela no Mercosul e das capitulações diante de Evo Morales ter-se-ia tornado fisiológico, oportunista, enganador e, ademais, só preocupado com o avanço da esquerda no mundo, pouco ligando para o interesse público.

Uma decepção inteiramente explicável, mas que repousa sobre um equívoco, a respeito do qual queremos tratar aqui.

O equívoco consiste em achar que houve uma mudança no PT. Não, não houve. O PT nunca foi aquele partido idealista, impoluto, voltado para o bem do País, que a propaganda anunciava. Aqui reside o engano. Explico-me.

Desde sua origem o PT sofre forte influência marxista, que lhe vem tanto da esquerda católica quanto da esquerda leiga que o constituíram. O PT não é nem nunca foi um partido criado para resolver os problemas da vida presente; pelo contrário, seu objetivo é conformar a sociedade e o Estado segundo os ditames teóricos traçados no século XIX por Marx e seus sequazes. Suas ideias sobre a pobreza, a luta de classes, as desigualdades, e tantas outras, recendem ao marxismo mais transato.

Coerente com a doutrina marxista existe a moral marxista –– na realidade, a não moral ou imoral –– segundo a qual é bom tudo que ajuda a implantar o socialismo, e mau o que impede ou dificulta sua implantação. Apropriar-se dos bens públicos será bom se ajudar a socialização, e manter a palavra dada ou desmenti-la se fará na medida em que favorecer a causa. Perseguir alguém ou favorecê-lo independe de seus méritos pessoais, o importante é saber o que convém mais à causa.

Já o teórico comunista V. Kolbanoski escrevia em 1947: “Só é moral a conduta dos homens baseada na grande luta pela libertação da humanidade de todos os jugos e de quaisquer formas de exploração. [...] Durante a transformação socialista da sociedade, realiza-se entre os homens uma renovação do sistema moral. [...] Ensinar a moral comunista é, antes de tudo, educar os homens soviéticos, a juventude soviética em particular, no espírito de uma dedicação sem limites à causa do comunismo e de abnegação ao serviço da pátria socialista” (A Moral Comunista, Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 17 – Rio de Janeiro, Fevereiro/Março de 1949).

De acordo com essa lógica, para um petista autêntico, nada do que o PT tem feito é imoral. De modo que o PT não mudou. É o mesmo de sempre, desde que foi articulado pela esquerda católica e a esquerda leiga.

Fica a pergunta: os novos impolutos que estão aparecendo no cenário político serão diferentes?
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(*) Gregorio Vivanco Lopes é colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A decisiva classe média, último alvo do igualitarismo


Leo Daniele (*)
Ah! Famosa classe média! É difícil encontrar algo mais árduo de definir, pois se trata de um conjunto extremamente móvel, fluido e em grande crescimento, sobretudo agora que as classes sociais já não mais podem ser representadas com um triângulo como sempre, mas à maneira de um losango, como mostram os gráficos acima. Tendo ultrapassado em número a classe mais baixa, ela é o eixo do losango e da população deste País.

Possui bastante elasticidade. Num extremo, ela pode compor-se da famosa “burguesia de alto de morro” — de burgueses que decidiram morar em favelas, de tal maneira estava dura a vida aqui em baixo. Noutro extremo, podem pertencer a ela os que com um golpe de sorte ou de habilidade podem tornar-se pequenos — ou quem sabe, grandes — milionários. Entre estas pontas, está a classe média.

Triângulo ou losango, o que é certo é que ela é detestada, por dominar com seu número e sua posição, a figura das classes. Ela é o núcleo da opinião pública, e decisiva para as esquerdas, porque o pânico do burguês é indispensável para o triunfo dos subversivos.

Abaixo toda superioridade, dizem os igualitários. Não julgo que a classe média seja isenta de defeitos, mas nessa investida atual contra ela há um odor de sem-terra ou de reforma agrária indisfarçável e que incomoda.

Veja-se este brado de ódio: “A classe média é o atraso de vida, […] é estupidez. É o que tem de mais reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista”. Dir-se-ia que são palavras de um sans-culotte contra um aristocrata na Revolução Francesa ao pé da guilhotina, mas é a xingação de pessoa graduada das esquerdas para com a classe média, de hoje, e no Brasil. A autora destas palavras é a profa. Marilena Chauí [foto], e seu destempero vai adiante: “A classe média é uma abominação política porque ela é fascista, uma abominação ética porque ela é violenta, e uma abominação cognitiva porque é ignorante”.[1]

As forças contrárias à classe média nada seriam se não tivessem a seu lado um batalhão muito poderoso. Com muita dor, estou me referindo a uma parte dos eclesiásticos, que cerram fileiras com a esquerda em busca dos mesmos ideais anticlasse média.

Há já quarenta anos, Plinio Corrêa de Oliveira alertava: “Conseguiu [o comunismo] levar certo número de clérigos e de católicos leigos transviados a tentar com suas próprias mãos o estrangulamento da Igreja. Agora, tenta ele induzir a massa dos burgueses a estrangular com suas próprias mãos a classe [média] a que pertencem”.[2]

Surgem então os “igualitários de confessionário”, açulados pelo esquerdismo católico nivelador que se alimenta da inveja. Se quisermos saber para onde vai essa nova classe média como um todo, olhemos para a juventude de manifestações como a de 14 de março p.p, com 1,4 milhão de pessoas (a maior manifestação pública da história da França).[3] Todos contra o matrimônio homossexual. A juventude é o futuro e através de acontecimentos como estes poderemos saber para onde vai a classe média, que sob muitos aspectos é a medula da sociedade.

Exclama o conhecido jornalista francês Ivan Roufol: “A esquerda esfrega os olhos. Ela foi despojada do que lhe era mais querido!”[4] Realmente, a esquerda cheira a mofo depois de estar perdendo a juventude.
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[1] “O Globo”, Merval Pereira, 23-7-13. 
[2] “Folha de São Paulo”, 15-3-70. 
[3] Recomendo a leitura do artigo de Alejando Ezcurra Naón, Estará nascendo a Contra-Revolução francesa? (Catolicismo, nº 750, junho 2013). 
[4] Alejando Ezcurra Naón (Catolicismo, nº 750, junho 2013).

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(*) Leo Daniele colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Trabalhador-próspero-conservador ou hippie-vagabundo-esquerdista?

Especialistas da Universidade de Yale estudaram o público que recusa ou aceita as crenças ambientalistas. Ele se dividiria em dois polos: os “hierárquicos/individualistas” que desejam ordem social, autoridades constituídas, trabalho, progresso e livre iniciativa. Na linguagem não-técnica seriam conservadores de direita. No sentido oposto os “igualitários/comunitaristas” desejam abolir as diferenças de gênero, riqueza e raciais, e acham que o Estado está obrigado a lhes fornecer tudo o que precisam. No linguajar comum, estes seriam esquerdistas que desejam viver de bolsas do Estado sem trabalhar. Os “hierárquicos/individualistas” são “céticos diante das alegações ambientalistas”, enquanto “igualitários/comunitaristas” se dizem preocupados com as “mudanças climáticas”. A cultura científica polariza a oposição entre os dois grupos, pois cada um tem uma posição já assumida antes de adquirir os conhecimentos.
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Agência Boa Imprensa (ABIM)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ELEIÇÕES SEM A FURIOSA ESQUERDISTA


Franco Muralha (*) 
Não é nenhuma novidade comparar o cenário político a um teatro, em que cada espécime da troupe representa um papel para o qual foi designado e atua de acordo com o script. Alguns que não gostam de palhaços, animais amestrados e malabaristas identificam esse espetáculo com um circo. Outros preferem a imagem de uma orquestra, com o maestro dando as ordens, o spala sinalizando o tom, os instrumentistas no sobe-desce das suas intervenções, o coro traduzindo sons em palavras.

A sala de concertos prevê todas as condições para evitar protestos e manifestações durante a apresentação, e o respeitável público se limita a caras contrafeitas, grunhidos e movimentos inquietos nas poltronas, quando o espetáculo não convence. Deixa para manifestar no final seu agrado ou desagrado, num plebiscito escrutinado por quota maior ou menor de aplausos.

Mas acho que a atividade política deste nosso Pindorama parece identificar-se mais com uma furiosa. O leitor certamente sabe o que na linguagem informal se conhece como furiosa: aquela simpática bandinha de música, infelizmente em processo de extinção, que já foi a alegria de quase todas as cidades pequenas e grandes. A retreta por ocasião de festas e solenidades era obrigatória. Entre os instrumentistas havia sempre um vizinho, parente ou conhecido, e o espectador procurava observar como ele se saía, para depois tirar uma “casquinha” ou manifestar sua admiração. O som volumoso da furiosa repercutia ao longe, mexia com todos, ninguém lhe era indiferente.

Dosadas e distribuídas ao longo das músicas, as intervenções dos diversos instrumentos iam produzindo em conjunto os seus efeitos sonoros e psicológicos. Tristes ou alegres, estridentes ou discretos, agudos ou graves, cada um se manifestando mais intensamente ou menos, ou então se calando, conforme a impressão que a música devia provocar. O som cristalino do clarim, cantando vitória ou convocando para atos heróicos; o vozeirão profundo e conservador do contrabaixo, opondo-se a aventuras radicais; a vibração difusa do tarol, invasiva e persistente como um boato; flautas e flautins para imprimir alegria juvenil; a voz peremptória e autoritária dos pratos, tentando impor disciplina com base no “pare com isso!”. Trompa, oboé, bombardino, saxofone, cada um contribuindo para a charanga com sua mensagem própria. E também a pancada monótona e compassada do bumbo, impondo seu ritmo indiscutível. Tudo ordenado para o gran finale, quando cantam vitória em uníssono.

Tudo isso pode estar expresso na mesma música, ou então distribuído em doses maiores ou menores em partituras diferentes. O diretor do espetáculo escolhe o que é mais adequado às circunstâncias. Ora lança cantilenas de paz e amor, para disfarçar alguma carranca rubicunda; entoa um hino patriótico, quando em litígio com jornalistas ou rebeldes de várias categorias; ataca de Capitão Caçulo, se quer provocar entusiasmo; descola um passo doble – olé! – quando em vantagem numa disputa; solta o Cisne Branco, se precisa pacificar a galera; apela a Saudades de Matão, se o público não gosta do que seus cupinchas estão fazendo; o Peixe Vivo pode servir, quando as críticas vêm dos próprios camaradas.

Em busca dos aplausos do respeitável público, o coreógrafo pode entoar uma discutível melhora dos índices econômicos. Mas a grande maioria não entende de PIB, balança comercial, cotação do dólar, taxa de crescimento, e quer apenas ouvir harmonias bem mais simples: cadê o meu emprego? Onde eu vou vacinar os meus filhos? E a escola que me prometeram? Em casa ou na rua, quem me protege contra ladrões e assassinos?

A coreografia dos meses recentes fugiu dessas preocupações mesquinhas, pois não tinha resultados para mostrar. E como estão sendo os aplausos? Decepcionantes, ao contrário do que faz crer o malabarismo interpretativo do coreógrafo. Jornalistas que não se limitam a copiar o script do coreógrafo classificam a descida da serra da economia nacional como indisfarçável e retumbante catástrofe.

Interessados em arrancar estrondosos aplausos na próxima exibição, os organizadores do espetáculo devem estar contabilizando as estatísticas, lambendo as feridas e procurando ensaiar melhor. Tarefa difícil, talvez impossível. Como conseguir harmonia onde todos desafinam e chamam os outros de desafinados? Onde instrumentistas querem executar partituras diferentes? E a partitura, se é que ela existe, será aquela que o respeitável público deseja? Não haverá alguns instrumentos atrapalhando o conjunto? Ou serão todos os instrumentos?

Examinemos o caso do bumbo. Ah, esse pesado marcador de ritmo deveria estar em todo o repertório, porque... bem, porque tem de marcar o ritmo, que inclui Reforma Agrária, ambientalismo radical, justiça social, invasões, igualdade, sustentabilidade – toda a cantilena comunista. Sem falar em greves turbulentas, índios pintados e vestidos a caráter, quilombolas que nem sabem o que é isso. Vozes altissonantes foram repentinamente silenciadas, obedientes a um comando, pois tudo indica que o efeito delas é indesejável. No fundo, essa cantilena “bumbástica” não agrada ao distinto público. As pessoas ouvem, não gostam e se calam. Mas aguardam o momento adequado para manifestar seu desacordo: a hora das eleições.

O diretor do espetáculo sabe disso, e resolve o problema de modo muito simples: silencia o bumbo na hora das eleições. Por exemplo, o leitor tem ouvido a música – desculpe: a estridência – do MST nos meses que precedem as eleições? Sumiu, evaporou-se, deu uma de morto. Por quê? Porque o som estridente e ameaçador das suas foices, facões e bandeiras vermelhas seria prejudicial em momento mais adequado a uma lânguida valsinha. Se o Brasil profundo gostasse do bumbo e da estridência, o coreógrafo não precisaria escondê-lo, o maestro não teria de apelar para a valsinha.

Apesar de toda a cautela em esconder o bumbo, apesar de bem ensaiada a valsinha, o resultado das eleições será decepcionante para o diretor do espetáculo. Aprenderá ele a lição? Não creio. Daqui a pouco, toda a pancadaria do bumbo recomeçará, contrariando as advertências do contrabaixo. Deixará no respeitável público a sua lembrança, que de novo pesará negativamente nas eleições seguintes. E poderá conduzir a um decepcionante gran finale, ao qual se seguirão palmas ainda mais minguadas, que de fato significam derrota.
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(*) Franco Muralha é colaborar da Agência Boa Imprensa (ABIM)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

“Banho de água fria” nos partidos de esquerda no Brasil, assim como em diversas nações

A esquerda está em crise em toda a Europa, deplorou o diário “Le Monde” de Paris. Dos 27 países da União Européia, 19 têm governo de direita, e os de esquerda estão em maus lençóis. O Partido Democrata Italiano (ex-comunista) desapareceu do Parlamento. A extrema-direita agigantou-se nas eleições de setembro na Áustria. O Partido Socialista Francês perdeu três eleições presidenciais consecutivas e é devorado por acusações internas.

O resultado das recentes eleições no Brasil foi um “banho de água fria” nos partidos de esquerda. Sobretudo o PT saiu muito enfraquecido. O professor de filosofia Paulo Arantes, porta- voz de um marxismo anacrônico, afirmou na USP (Universidade de São Paulo) que a esquerda brasileira está fazendo “uma confissão tácita de que não temos futuro”. Arantes defendeu como “única opção disponível” a dos “direitos humanos”. Opção, aliás, bem modesta para os defensores incorrigíveis da utopia marxista.