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sábado, 28 de setembro de 2013

Um século passado


Leo Daniele (*)

Um depósito contendo objetos caoticamente amontoados ao sabor dos anos: uma televisão quebrada jazendo ao lado de uma garrafa aberta de champanhe francês, confinando com uma bola de futebol estragada; um chapéu de feltro tipo antigo sobre uma pilha de listas telefônicas ultrapassadas; um velho rádio com sua antena agressivamente apontada para o teto, bom vizinho de um computador tornado obsoleto, mas que não foi vendido em tempo hábil, ou seja, antes de perder todo valor... Para muitas pessoas, o Século XX foi algo assim. Mero rótulo colocado sobre uma realidade confusa.

Por esse motivo, numerosos são os que desistem de entender seu significado na majestosa galeria dos séculos que se foram, atirando para o ar, à guisa de justificativa: “Mas isto não forma conjunto!”

Isto porque os cenários e os atores mudaram substancialmente ao longo do Século XX. Basta pensar nos bondes puxados por burros em meio a prédios sem concreto armado e em ruas geralmente sem asfalto, do início do século. Ou naquela gente que se movia devagar, os homens com chapéu, as senhoras com longas saias, uns e outros ignorantes do que fosse uma televisão ou uma pílula anticoncepcional. Ou naqueles casamentos estáveis (menos de 2% de separações em 1900 contra quase 20% no ano 2.000).

Como tudo é diferente hoje! Como foram vertiginosas as transformações que se verificaram em nosso tempo!

Nos primeiros anos do século, um telefone que toca constitui uma novidade sensacional. Bem menos de 100 anos depois, a lembrança da conquista da lua provoca tédio!

Tudo aquilo que é lançado como última novidade torna-se obsoleto em pouco tempo. E à força de tudo precisar ser hiper-novo, tudo como que já nasce velho, embora com direito a alguns minutos de “glória”.

Em termos de tipo humano, as alterações também foram impressionantes. É quase impossível imaginar, encontrando-se num mesmo salão, um Guilherme II com um Bill Gates. Ou um Clemenceau com um Perón. Ou um Eduardo VII com um Clinton. Enquanto um se inclina e pergunta “como tem passado Vossa Senhoria?”, o outro dispara um “oi!” ou “olá!”...

Entretanto, todos esses personagens tão diversos, mas representativos de seu tempo, viveram num mesmo século! 

Chateaubriand (1768-1848) observava: “Este amor ao feio que nos tomou, este horror do ideal, esta paixão pelos mancos, aleijados, vesgos, trigueiros, desdentados, esta ternura pelas verrugas, rugas, escarros, pelas formas triviais, sujas, comuns, são uma depravação do espírito; ele não nos foi dado pela natureza da qual tanto se fala” [1].

Mas a arte contemporânea é tal qual ou até pior do que Chateaubriand descreve. Lê-se no "New York Times": Para se destacar como modelo, agora é preciso ter algum defeito. “Quando procuro modelos, ‘ser bonita’ não está na minha agenda”. [2]

Nossa época, como qualquer época da História, pode ser julgada através do tipo humano que gerou. De pouco adiantaria conquistar a Lua e todas as estrelas, e ao mesmo tempo desvendar o micro-universo do átomo, efetuar todas as proezas da tecnociência, atingir um grau de enriquecimento prodigioso numa estabilidade econômica completa, se concomitantemente o tipo humano entrasse em visível decadência. Pois o que interessa sobretudo ao homem, abaixo de Deus, é o próprio homem.

Vamos imaginar que em 100 anos todos os homens, atingidos por uma enfermidade desconhecida, se tornassem anões. Que decepção! Por mais que as conquistas da ciência e o desempenho da economia fossem expressivos, esse século ficaria marcado como catastrófico.

Felizmente, no Século XX isso não ocorreu no aspecto físico. Que dizer da alma e da personalidade? É a pergunta.

Afirma Plinio Corrêa de Oliveira: “Uma concepção a-filosófica e a-religiosa da sociedade, meramente econômica e profissionalista, dá origem ao grande desespero das multidões contemporâneas. Ontem estas se esbaldavam para fazer capital, hoje para fazer revolução, e já amanhã para se atirarem no bueiro do miserabilismo niilista, isto é, na glorificação do andrajo e da miséria, da sujeira, do desmazelo e do caos”. [3]
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Notas:
[1] Essai sur la littérature anglaise, II.
[2] Marisa Meltzer, "The New York Times", in "Folha de S. Paulo", 24-9-13.

[3] Em 11-2-83.

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(*) Leo Daniele é colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

“Costa Concórdia”, “Titanic” do século XXI: presságio de um fim de época?

Costa Concordia: símbolo do afundamento da União Européia? 

Luis Dufaur (*)

O afundamento do “Costa Concordia” rememorou na Europa os tristes presságios levantados pela perda do “Titanic”, escreveu Ben Macintyre, do diário “The Times” de Londres, reproduzido pelo “The Australian“.

Sir Osbert Sitwell viu na tragédia do transatlântico inglês, ocorrida em 14 de abril de 1912, um “símbolo de uma sina que se avolumava sobre a civilização ocidental”. E, de fato, não muito depois, a I Guerra Mundial arrasaria o continente europeu, pondo fim à sua rica, requintada e irrefletida Belle Époque. Foi o fim de uma época.

Hoje, no momento em que a União Europeia naufraga num mar de dívidas, na incerteza política e na instabilidade social, o desastre do luxuoso cruzeiro italiano inspira presságios não menos convidativos à reflexão.

Neste ano em que vai se decidir se o euro afunda ou se permanece à tona, o “Costa Concordia” surge como uma alegoria perfeita da extravagância financeira e da artificialidade da imensa construção europeia.

Um enorme palácio flutuante, de um luxo que faria o “Titanic” ser considerado quinquilharia; de ostentação e gosto discutíveis, mas não por isso menos impressionantes para os nossos dias; esse foi o maior cruzeiro que a Europa da era UE conseguiu construir. Custou o faraônico preço de 572 milhões de euros e foi acabar se desventrando nos recifes de uma simples e poética ilha toscana.

Os desastres — escreveu Macintyre — marcam de um modo poderoso as curvas da História. E assim como o desaparecimento do “Titanic” soou como um gongo para a era vitoriana, o fim do “Costa Concordia” poderia marcar simbolicamente o fim de uma época tão confiada quanto insegura como a nossa.

Em 1912, G. K. Chesterton viu no afundamento do “Titanic” a punição da “modernidade”, de uma era orgulhosa que se auto-adorava num navio fruto de suas mãos e supostamente impossível de afundar, e que acabou reduzido a nada pela natureza que ele acreditava ter dominado para sempre.

O “Costa Concordia” — pergunta Macintyre — pressagiará uma mudança de época comparável, trará uma advertência ou uma eventual punição à obsessão por uma modernidade que adora as velocidades, as construções babilônicas e o luxo “globalizado”?

Acrescentamos nós: uma “modernidade” que pretende atingir o céu desconhecendo a própria moral natural e desafiando as leis do Criador? Esta é uma questão que está no cerne dos anúncios do Céu como os de La Salette e Fátima.
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(*)  Luis Dufaur é colaborar da Agência Boa Imprensa - ABIM

sábado, 24 de setembro de 2011

CANSAÇO


Leo Daniele (*)

O suspense cansa.

Imaginemos um carro à beira do precipício. Um verdadeiro abismo com todas as suas características, inclusive o convite gritante para a ação da força da gravidade. O vazio sobe no nosso peito, nos incomoda, o impacto do episódio nos impressiona. E se …? O motorista do carro, entretanto, está despreocupado. Os passageiros também. Mas a tragédia é para dentro de segundos.

Digamos que a cena seja a ilustração com a qual abrimos todos os dias nosso computador (que mau gosto, não?). Ao cabo de um ano, a ilustração só impressiona visitantes. Para nós, apenas causa bocejos. Ficou rotineira.

Hoje, como numa dança macabra, a tragédia se repete sem parar numa escala mundial. São desastres atrás de desastres. Filhos matam seus pais, mães assassinam seus filhos (nem estou falando do aborto). Professoras escandalizam seus alunos. A moralidade se precipita, como o carro do início deste artigo. Os homossexuais pretendem “casar-se”. O mais alto edifício de mundo é derrubado por terroristas (lembra-se?). Terroristas massacram 20 ou 50. Em alguma parte do globo, a cada 5 minutos acontece o martírio de um católico, segundo li neste mesmo site.

E as pessoas que deveriam dar brados de alerta, ter lágrimas de pranto, soltar clamores de indignação, bocejam.

Contribuem para o cansaço geral, limitando-se a dizer de vez em quanto: “É lamentável…” E ficam por aí. Eu também fico por aqui. A opinião pública assiste, cansada.

“Quais as causas dessa ingenuidade obstinadamente cega, que penetrou em tantos, grandes ou pequenos, cultos ou ignorantes, moços ou velhos?”, perguntava, nas páginas da Folha de S. Paulo, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira em 1968 (28 de agosto).

O fenômeno é o mesmo. Ele responde: “É o cansaço, o terrível cansaço de ser lógico, sério, coerente e arguto”. Sim, estaremos cansados, o excesso de informações na internet, imprensa, rádio, TV, continuando a produzir esta estafa.

Mas convém ter presente que o autor afirma, no mesmo artigo: “Pode-se dizer que em muitas guerras ou tensões internacionais, ganhou quem, até o fim, não se deixou penetrar por esse amolecimento fatal”.

Sejamos um destes. Sacudamos o torpor. O momento presente no-lo pede. Nossa Senhora nos ajudará.
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(*)  Léo Daniele é colaborar da ABIM

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

À procura de almas


Pe. David Francisquini *

Ao observar um passarinho fazer seu ninho, constatamos como Deus o dotou de um apurado instinto, pelo qual ele o arranja de tal modo que proporciona segurança e conforto aos filhotes, ademais de abrigo para a mãe. Depois de ter criado a “prole”, voa para outros lugares, enquanto sua descendência tocará a própria vida.